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Secar a roupa dentro de casa quando lá fora chove e não dá para estender

Secar a roupa dentro de casa quando lá fora chove e não dá para estender

Estendeu uma máquina cheia na sala e de manhã os vidros estavam a escorrer? De onde vem aquela água toda e para onde a manda, num inverno em que chove uma semana seguida e a marquise é a divisão mais fria da casa? Vamos fazer a conta aos litros que saem de uma carga de roupa, passar pelo estendal, pelo desumidificador e pela máquina de secar, e ver quanto custa cada caminho. No fim fica a saber a partir de que ponto o problema deixa de ser incómodo e passa a ser bolor.

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Em resumo

  • Portugal tem a segunda maior fatia de casas com infiltrações, paredes húmidas ou caixilhos podres de toda a União Europeia: 29 %, contra uma média de 15,6 %.
  • Seis quilos de roupa centrifugados a 1000 rotações libertam para o ar da casa cerca de três litros e meio.
  • Três em cada quatro habitações cá não têm onde secar roupa à máquina, e há mais casas com desumidificador do que com secador.
  • Os aparelhos de compressor quase param de tirar água abaixo dos 15 °C, e é essa a temperatura de meia casa portuguesa em janeiro.

Comecemos por essa água. Sem saber quanta é, não dá para decidir se basta abrir a janela ou se vale a pena comprar um aparelho.

Quanta água sai de uma carga de roupa

A roupa lavada não pinga, evapora-se. E tudo o que sai dela fica cá dentro.

A quantidade de água que o tecido retém depois da centrifugação vem na etiqueta energética da máquina de lavar, com o nome de humidade residual. É uma percentagem do peso da roupa seca, portanto converte-se em litros sem esforço: uma carga de 6 kg com 62 % de humidade residual leva à volta de 3,7 litros de água.

Os guias domésticos falam mais vezes em dois a três litros, e nós próprios usámos esse número no artigo sobre humidade e bolor. A diferença explica-se: quase ninguém lava com o tambor cheio. Continuam a ser litros e vão todos para o ar.

Um adulto liberta pela respiração e pela pele cerca de litro e meio por dia. Uma máquina posta a secar dentro de casa pesa portanto mais do que uma visita a mais. Lava três vezes por semana e o apartamento não tem por onde respirar? Então a água não tem para onde ir.

A centrifugação faz metade do trabalho

O desumidificador mais barato que tem em casa é a máquina de lavar.

A etiqueta europeia arruma as máquinas por classes de centrifugação, conforme a humidade que deixam no tecido. Quanto mais baixa a percentagem, menos água leva para o estendal.

Classe de centrifugaçãoHumidade residualRotações habituaisÁgua na carga
Aabaixo de 45 %1600 ou maiscerca de 2,7 l
B45 a 54 %à volta de 1400cerca de 3,0 l
C54 a 63 %à volta de 1000cerca de 3,5 l
D a E63 a 81 %à volta de 800cerca de 4,3 l

Classes segundo o Regulamento (UE) 2019/2014. Os litros são a conta para uma carga de 6 kg.

No papel a diferença entre a classe C e a classe A parece insignificante, mas numa carga é quase um litro de água que não tem de pôr cá fora. As rotações altas têm o seu preço: o algodão enruga e as peças delicadas sofrem, portanto guarde-as para toalhas, lençóis e ganga.

Veja também se a máquina tem um programa de centrifugação extra no fim. Nos tecidos grossos, esses minutos a mais notam-se bem.

A marquise é uma armadilha

Numa boa parte dos apartamentos portugueses a roupa vai sempre para o mesmo sítio: a marquise, a varanda fechada com alumínio e vidro simples que serve de lavandaria. É prático e é ao mesmo tempo o pior sítio da casa para o fazer sem cuidados.

A marquise costuma ser a divisão mais fria do apartamento, não tem aquecimento nenhum e o vidro simples fica, numa noite de janeiro, à volta dos 10 °C. Ou seja, é exatamente a superfície onde o vapor da roupa condensa primeiro. Se ainda por cima a porta para a cozinha ficar aberta, a humidade circula pela casa toda e vai condensar no canto da parede exterior do quarto.

Duas coisas mudam isso sem obras:

  • Feche a porta entre a marquise e o resto da casa enquanto a roupa seca, e mantenha a janela ou a grelha de ventilação aberta.
  • Não encoste o estendal ao vidro nem à parede de fachada. Um palmo de afastamento deixa o ar circular à volta das peças.

O espaço entre as peças conta mais do que o tamanho do estendal. Roupa pendurada em cima de roupa demora o dobro e ainda apanha cheiro a mofo pelo caminho. Se em casa só tem um estendal de roupa, compensa ter um segundo e pendurar com folga em vez de encher o primeiro.

Arejar mesmo com chuva lá fora

Há uma ideia muito repetida que convém desmontar: se está húmido lá fora, abrir a janela só piora. Não é verdade, e a conta é simples.

Pelas normais do IPMA, janeiro em Lisboa tem uma temperatura média de 11,8 °C e 86 % de humidade relativa às nove da manhã. No Porto são 10,2 °C e 84 %. Assim que esse ar entra em casa e aquece até aos 20 °C, cai para menos de metade dessa percentagem. Ou seja, o ar atlântico seca a casa, desde que a divisão volte a aquecer depois.

  1. Feche a porta da divisão onde está o estendal

    Assim a humidade não se espalha pelo resto da casa, sobretudo não para os quartos.

  2. Abra a janela de par em par durante cinco a dez minutos

    De uma vez só é que o ar se renova mesmo. A janela oscilobatente encostada não troca ar nenhum e arrefece o aro até à temperatura a que a água condensa.

  3. Feche e aqueça

    O ar quente leva mais vapor do que o frio, portanto a carga seguinte seca mais depressa. Sem aquecimento nenhum a casa fica presa na humidade.

  4. Repita várias vezes ao dia

    Uma arejadela de manhã não chega para três litros de água.

Aqui está a diferença mais dura entre cá e os países do centro da Europa: segundo os Censos de 2021, 30 % das habitações portuguesas não usam aquecimento nenhum e apenas 14 % têm aquecimento central. Para quase um terço das casas, portanto, o terceiro passo simplesmente não existe, e é por isso que a humidade se instala mesmo em quem areja bem.

A saída é modesta e funciona: se tem um aquecedor portátil, ligue-o na divisão da roupa com a porta e a janela fechadas durante uma hora, em vez de o pôr na sala. Aquecer e arejar não são alternativas, trabalham aos pares.

Quando compensa um desumidificador

O desumidificador é a maneira mais rápida de tirar água de casa sem abrir janelas, e num inverno de chuva contínua é o aparelho que faz sentido comprar antes de uma máquina de secar. As casas portuguesas, aliás, já votaram nesse sentido: o inquérito ao consumo de energia doméstica do INE conta desumidificadores em 26 % das habitações e máquinas de secar em apenas 24 %.

Numa divisão fechada põe a roupa seca em menos de doze horas e manda a água para um depósito que depois despeja. Os modelos domésticos rondam os duzentos watts e tiram 16 a 20 litros por dia, portanto o custo de funcionamento fica em cêntimos por hora e sai bem mais barato do que um ciclo de tambor.

Há um senão, e cá pesa mais do que noutros sítios. Um desumidificador de compressor só trabalha como deve ser acima dos 10 a 15 °C, porque o circuito de frio precisa de calor para funcionar. Numa marquise sem aquecimento em janeiro, é precisamente essa a temperatura que não tem. Para divisões frias existe o modelo exsicante, que não se importa com o frio e em troca gasta mais.

Antes de gastar dinheiro, há um atalho que vale a pena testar. Se estiver entre as casas que têm ar condicionado instalado, e cá é cerca de uma em cada seis, o aparelho traz quase sempre um modo de desumidificação, e para uma divisão fechada com o estendal lá dentro costuma chegar.

A máquina de secar e o que custa ligá-la

Cá a máquina de secar está em cerca de um quarto das casas, e o que a trava é a falta de espaço e a fama de gastadora. Vale a pena arrumar essa fama com números, e desfazer ao mesmo tempo uma crença muito repetida: a bomba de calor não garante consumo baixo por si só. Depois de a etiqueta ter apertado em 2021, os modelos com bomba de calor espalharam-se por várias classes e há-os a gastar o dobro dos mais eficientes.

Olhe para a classe energética e para o consumo por cem ciclos. Um modelo de 9 kg com bomba de calor pode trazer 1,45 kWh por ciclo e classe E, enquanto os melhores ficam por cerca de metade.

Como secaConsumo por 100 ciclosCusto de um cicloNum ano, a 160 ciclos
Máquina de classe Acerca de 73 kWh0,18 €cerca de 28 €
Máquina de classe E ou Fcerca de 145 kWh0,35 €cerca de 56 €
Máquina de lavar e secar250 a 300 kWh0,61 a 0,73 €acima de 95 €
Desumidificador junto ao estendalconforme as horascêntimosdifícil de estimar
Estendal à janela0 kWh0 €paga-se no calor que se vai pela janela

Calculado a 0,2435 € por kWh, o preço médio da eletricidade doméstica em Portugal no segundo semestre de 2025 segundo o Eurostat. Valores arredondados.

A máquina combinada de lavar e secar é a pior da lista e esse é o preço de poupar espaço. Quem tiver onde pôr um aparelho separado, recupera a diferença.

Prós

  • A máquina de secar manda a água para fora de casa, portanto a humidade deixa de ser problema
  • A roupa fica pronta em horas em vez de dois dias e não ganha cheiro

Contras

  • O preço de compra e o espaço que ocupa, que numa cozinha portuguesa raramente sobra
  • Nas classes mais baixas paga em eletricidade o dobro dos melhores modelos

Onde o estendal não deve ficar

Três sítios que parecem convidativos e dão problemas:

  • Em cima do radiador ou do aquecedor. Um aparelho tapado aquece pior, e a roupa molhada por cima de um termóstato faz com que ele leia calor a mais e corte o aquecimento à divisão inteira.
  • No quarto. Passa a dormir na divisão mais húmida da casa e acorda com os vidros a escorrer. É a combinação pior que existe, e a partir daí o colchão também entra na conta.
  • Numa casa de banho interior. Uma divisão pequena com a ventilação avariada satura-se numa hora e a roupa deixa de secar.

O melhor compromisso é uma divisão fresca mas que dê para arejar, ou então uma aquecida com saída de ar. O ideal sem defeitos não existe, trata-se de não acrescentar água onde ela já é de mais.

Quanta humidade ainda está bem

Aqui vai dar de caras com recomendações diferentes, e vale a pena saber de onde vêm.

Recomendação corrente para habitação
40 a 60 % de humidade relativa
No inverno, junto ao limite de baixo
40 a 50 %
Temperatura de referência do regulamento térmico
18 °C na estação de aquecimento
Risco de bolor
a partir de 80 % junto à superfície fria

A diferença não é uma discussão sobre factos, é uma questão de objetivo. A faixa larga serve o conforto e a conservação do edifício; a faixa estreita serve quem tem alergia aos ácaros, que prosperam acima dos 50 %. Sem alergias em casa, a faixa larga chega bem.

Convém também esclarecer uma coisa: em Portugal não existe nenhuma regra legal de humidade relativa para habitação. Os 18 °C que aparecem na tabela são a temperatura que o regulamento assume para calcular o certificado energético de uma casa, e não uma obrigação de ninguém. A norma de qualidade do ar interior que fixa limites para fungos aplica-se a edifícios de comércio e serviços, não a apartamentos. Quem trata do assunto para casas é a Organização Mundial de Saúde, e nas suas orientações sobre humidade e bolor em edifícios não fixa sequer um número: diz que o que tem de ser evitado é a humidade persistente e o bolor visível, seja qual for a leitura do higrómetro.

Quando aparece o bolor

Manchas escuras no canto atrás do roupeiro ou à volta do aro da janela querem dizer que há humidade a mais há muito tempo. E se lhe serve de consolo, tem muita companhia: pelos dados do Eurostat, 29 % da população portuguesa vive numa casa com infiltrações, paredes ou chão húmidos ou caixilhos apodrecidos, quase o dobro da média europeia de 15,6 % e o segundo valor mais alto da União. Metade do edificado cá é anterior a 1981, ou seja, foi construído uma década antes de existir qualquer exigência térmica.

O pormenor em que quase todos os conselhos tropeçam: o que decide é a humidade rente à parede mais fria, não a que o higrómetro mostra a meio da divisão. Ar que na sala marca uns confortáveis 60 % pode chegar aos 80 % num aro de janela frio ou atrás de um armário encostado à fachada, e é daí para cima que o bolor deixa de ter travão. Por isso é que as manchas aparecem nas paredes a norte, atrás dos móveis encostados e à volta das pontes térmicas. Numa casa com caixilharia de alumínio sem corte térmico e vidro simples, esses pontos frios são praticamente toda a fachada.

Limpar a mancha não chega, ela volta enquanto a humidade não descer e o ar não passar por trás dos móveis. Em casa arrendada o assunto tem outra camada: as obras de conservação do imóvel cabem em regra ao senhorio, portanto bolor persistente numa parede é coisa para comunicar por escrito em vez de pintar por cima.

Compre um higrómetro, custa cerca de dez euros. Sem um número está a discutir com uma sensação, e no inverno a sensação engana.

Perguntas frequentes

Quantos litros de água tem uma máquina de roupa?

Seis quilos lavados numa máquina de classe C saem do tambor com perto de três litros e meio. Para saber o seu valor exato, veja na etiqueta energética a percentagem de humidade residual e aplique-a ao peso da roupa seca.

Secar roupa dentro de casa faz mal?

Prejudica sobretudo o edifício: a água que sai dos tecidos vai toda para o ar e reaparece na superfície mais gelada que encontrar. Isolando a divisão, renovando o ar com frequência e não sobrepondo peças, o risco desaparece.

Vale a pena abrir a janela quando está a chover lá fora?

Vale, e é contra-intuitivo. Um ar exterior saturado a 85 % perde mais de metade dessa percentagem só por aquecer nove graus ao entrar. O que de facto não serve para nada é deixar a janela encostada o dia inteiro.

Porque é que não se deve secar roupa em cima do aquecedor?

Porque o termóstato lê calor a mais debaixo do tecido molhado e corta o aquecimento, arrefecendo a divisão toda. E a humidade sai de uma vez em vez de sair aos poucos.

Quanto custa secar uma máquina de roupa na máquina de secar?

Ao preço atual da eletricidade, à volta de dezoito cêntimos por ciclo nos modelos mais eficientes e de trinta e cinco nos piores.

Uma máquina de secar com bomba de calor é sempre económica?

Não, e é um equívoco caro. Essa tecnologia hoje aparece tanto no topo da tabela como na classe E, por isso guie-se pelos quilowatt-hora impressos na etiqueta e ignore o resto.

Um desumidificador funciona numa marquise fria?

Mal. O tipo de compressor precisa de calor para o seu circuito e desiste por volta dos dez ou quinze graus. Ou aquece a divisão antes, ou escolhe um modelo exsicante.

A que humidade começa a aparecer bolor?

O risco arranca à volta dos 80 % na superfície mais fria da divisão. O higrómetro pousado na mesa pode estar a marcar bastante menos ao mesmo tempo.

Que a roupa lhe seque antes de se esquecer dela no estendal!

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